CONSEQUÊNCIAS DO CÂNCER

Paulo Cesar Naoum, biomédico, Professor Titular em Biologia pela UNESP, Diretor da Academia de Ciência e Tecnologia de São José do Rio Preto, SP, Brasil.

Há dois tipos básicos de tumores: o benigno e o maligno. Define-se como tumor benigno aquele cuja evolução não causa o câncer, enquanto que o tumor maligno pode, dependendo de várias circunstâncias que serão apresentadas a seguir, evoluir para o câncer . Assim, conceitualmente designa-se por tumor benigno aquele formado por células tumorais que não sofrem mutações sequenciais e, por isso, suas células não se tornam invasivas e agressivas contra as células normais que as cercam. Os tumores malignos, por sua vez, são formados por células tumorais que sofrem sequentes mutações que as tornam invasivas e agressivas contra as células normais que as cercam, quer sejam no tecido ou órgão em que se instalaram como tumor primário bem como como tumor metastático que se deslocam para outros tecidos e órgão. Quando isto acontece, a doença decorrente dessa invasão tumoral é denominada por câncer porque sua disposição microscópica tem a forma de um caranguejo (figura 1). O tempo de demora da transformação de um tumor primário maligno em câncer, dependendo do tipo, varia entre alguns meses a muitos anos. Na fase em que se detecta um tumor primário qualquer é preciso que se faça a caracterização de sua composição para determinar se o mesmo é composto por células malignas ou benignas. Por meio de análises das células que compõe o tumor se verificam suas formas (morfologia celular), seus componentes químicos externos e internos (citoquímica celular) e se diferenciam por meio de anticorpos monoclonais as proteínas e carboidratos que compõe suas membranas (imunofenotipagem). A figura 2 mostra a microscopia eletrônica de uma célula em que é possível visualizar vários produtos celulares capazes de serem identificados por tecnologias laboratoriais específicas. Por meio desses resultados é possível estabelecer protocolos padrões que determinam classificações médicas do tumor e que geralmente podem estar relacionados com a clínica da pessoa portadora do tumor.

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Figura 1 – Invasão de células tumorais metastáticas (em vermelho) em um tecido. Observe a disposição espacial com a forma de “caranguejo”.

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Figura 2- Microscopia eletrônica de uma célula com vários produtos de membrana, citoplasma e núcleo capazes de auxiliarem na diferenciação entre células normais e tumorais através de tecnologias laboratoriais específicas.

O que causa o câncer

Todas as células do nosso corpo que tem núcleos, excetuando-se, portanto, hemácias e plaquetas, possuem moléculas de DNA que se juntam e formam os cromossomos. Em cada um dos 23 pares de cromossomos dessas células estão alojados centenas a milhares de genes com funções específicas (figura 3).

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Figura 3- Microscopia eletrônica de um par de cromossomo exibindo alguns genes com diferentes colorações. Cada um desses genes sintetizam proteínas e enzimas específicas para as diversas funções celulares.

As moléculas de DNA contem combinações químicas diversificadas conhecidas por códigos genéticos que promovem as inúmeras ações nas células. Se moléculas de DNA tiverem algum tipo de lesão química, os genes que as carregam promoverão ações anormais. As principias ações dos genes relacionados com tumores se devem aos controles da divisão, maturação ou diferenciação, mobilidade e morte celular. Dessa forma, quando ocorre uma lesão no DNA de algum gene, a célula tenta de todas as formas corrigir a lesão através de genes específicos que “consertam biologicamente” o erro molecular do DNA – esses genes são conhecidos por genes de reparo. Entretanto, quando o gene de reparo não consegue consertar o defeito molecular do DNA, a célula afetada desencadeia reações químicas através de anti-oncogenes ou genes supressores de tumor que induzem a morte da célula, fenômeno biológico conhecido por apoptose celular ou suicídio celular.

Entre as causas de lesões no DNA capazes de transformarem células normais em tumorais, destacam-se as seguintes: a) 90% das causas de câncer tem origens adquiridas dos hábitos das pessoas ou provenientes da contaminação do meio ambiente. Entre as principais causas de hábitos não saudáveis destacam-se o uso contínuo do tabagismo, de alimentos gordurosos (gorduras trans e saturadas), de nitrosaminas (sal grosso, em especial) e de álcool. Entre as principais interferência não saudável do meio ambiente destacam-se as infecções recorrentes de vírus (HIV, HPV, HBV, HTLV-1, EBV, etc), poluentes químicos oxidantes e aromáticos e radiações cumulativas;

b) 5% das causas de câncer tem origem constitucional da própria pessoa e que pode se manifestar em qualquer fase de sua vida. Entre as principais causas constitucionais destacam-se a deficiência imunológica crônica e algumas doenças específicas que causam fragilidades em moléculas de DNA tornando-as passíveis de constantes mutações;

c) 5% das causas de câncer tem origem hereditária como são os casos de retinoblastoma, câncer de mama e ovário por mutações nos genes BRCA1 e BRCA 2, síndrome de Li-Fraumeni (diversos tipos de câncer em membros de uma mesma família), síndrome de Coweden (vários tipos de câncer por mutação no gene PTEN), polipose adenomatose familiar, síndrome de Lynch e neoplasia endócrina múltipla tipo 1.

Por que o câncer pode ser mortal?

As células do câncer são capazes de invadirem outras partes do corpo, onde crescem e formam novos tumores. Elas se espalham no organismo através da circulação do sangue (figura 4) ou da circulação linfática, num processo conhecido por metástase (figura 5). Um exemplo clássico de metástase ocorre quando células de um tumor inserido no intestino atravessam as paredes intestinais e, ao alcançarem a circulação sanguínea, se instalam na bexiga. As células tumorais metastáticas por meio desse processo de locomoção chegam continuamente a um novo tecido ou órgão, e em pouco tempo se agrupam aos milhares e passam a se dividir sem controle, aumentando o tamanho do tumor e causando vários tipos de desorganizações funcionais no tecido ou órgão invadido. A capacidade do câncer ser ou não ser mortal depende de muitos fatores. Quando o diagnóstico de um tumor primário é feito precocemente as chances de cura são consideráveis. Entretanto, essas chances diminuem quando o tumor se torna metastático e atinge órgãos e tecidos muito vascularizados, tal qual o pulmão e aqueles que efetuam importantes coordenações fisiológicas como o cérebro, por exemplo. Os danos causados no organismo pelas células cancerosas se devem a várias razões, com destaque para o crescimento do tumor que, ao atingir determinado tamanho, interfere em órgãos vizinhos ou em dutos que transportam produtos orgânicos importantes. Esses processos, ao se tornarem intensos, podem causar distúrbios incontroláveis no organismo e, inclusive, a morte da pessoa acometida pelo câncer.

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Figura 4- Circulação vascular de células tumorais (em verde) provenientes de um tumor primário e que se deslocam para um outro tecido ou órgão muitas vezes distantes ao do tumor inicial.

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Figura 5 – Metástases de tumores no pulmão provenientes de um tumor primário.

Por que é difícil controlar o câncer?

O câncer é uma condição patológica muito complexa. Cada tipo de câncer é biologicamente diferente entre si, por exemplo, o câncer de pulmão é completamente diferente dos linfomas que, por sua vez, tem quase 100 subtipos distintos entre si. Além disso, há variações individuais para um mesmo tipo de câncer, como ocorre, por exemplo, no câncer de mama. O câncer de mama pode se comportar diferentemente entre duas mulheres uma vez que neste tipo de câncer há cerca de 30 mutações diferentes. Toda essa diversidade genética torna mais difícil o tratamento médico para os pacientes com câncer. Atualmente, o que se propõe são ações preventivas com destaques à detecção precoce do tumor, principalmente dos tumores mais frequentes no Brasil, como são os casos de tumores de pele não-melanoma, próstata, mama e pulmão, entre outros. Para a maioria dos tumores descobertos em sua fase inicial há procedimentos eficientes para erradica-los e evitar que o mesmo evolua para câncer. Entretanto, uma vez detectado o tumor, a ciência e tecnologia dispõe de muitas formas que o mantém controlado, com destaques para os controles periódicos de avaliações clínicas, laboratorial e de imagens. Nos últimos cinco anos a indústria farmacêutica tem elaborado vários medicamentos com base em anticorpos monoclonais que atacam preferencialmente as células tumorais. Tratamentos com esses tipos de medicamentos são denominados de terapias-alvo e tem vantagens por serem menos tóxicos ao organismo, especialmente quando comparados com a quimioterapia tradicional. No momento, essas são as armas disponíveis que pacientes com câncer e médicos oncologistas podem usar para controlar o câncer.

O futuro das pesquisas em câncer

É provável que este século seja notabilizado pelo domínio terpapêutico do câncer deixando-o de ser doença grave para condição patológica controlável ou curável. É possível que esse domínio ocorra através da melhorias de duas estratégias existentes no momento, quais sejam, a preventiva e a terapêutica. A estratégia preventiva ocorrerá por meio de imagens com altíssimos graus de resoluções, identificando-se tumores com tamanhos menores aos seis milímetros obtidos pelos atuais equipamentos, permitindo, portanto, suas remoções ou eliminações em fases pré-tumorais. Além disso, à medida que o conhecimento do mapa genético do nosso organismo seja estabelecido com segurança para a identificação laboratorial e organizado adequadamente para uso médico, será possível determinar previamente a tendência que alguns genes têm de provocar mutações epigenéticas, ou seja, aquelas induzidas por hábitos não saudáveis e contaminações ambientais e que ocorrem cumulativamente ao longo dos anos de nossas vidas. Esse fato certamente será determinante na conscientização mais efetiva no convencimento das pessoas abandonarem certos vícios não saudáveis. Esse convencimento terá o mesmo impacto tal qual o que ocorre atualmente na cardiologia, com controles efetivos das elevações de colesterol como cuidados preventivos para a integridade do coração e dos vasos sanguíneos. Com relação às estratégias terapêuticas do futuro será possível aperfeiçoar o uso nanomoléculas acopladas a drogas de destruição somente de células tumorais, personalizadas para os diferentes tipos de câncer e com pouquíssima toxicidade ao paciente. Porém, rececentemente, foi apresentada a droga Brentoximab vedoitina que é a junção de anticorpo monoclonal, que identifica o receptor de membrana da célula tumoral da doença de Hodgkin (CD30), e uma nanopartícula biodegradável que transporta a droga (vedoitina) que rompe a rede de microtubulos citoplasmático e, consequentemente, causa a morte da célula tumoral. Esse é um exemplo que tem possibilidades de sucesso em mostrar caminhos reais de cura ou de controle terapêutico efetivo. Por fim, a imunoterapia celular já aplicável para doenças autoimunes, poderá ser usada no tratamento de câncer. Este tipo de tratamento se notabiliza pelo estimulo fisiológico imunológico antitumoral por meio da injeção de células imunológicas antitumorais retiradas do próprio paciente com câncer, que após serem isoladas laboratorialmente e multiplicadas em meios de cultura, são injetadas na circulação sanguínea para exterminar células tumorais malignas. Trata-se de terapias inteligentes, com expectativas de sucesso no controle tumoral e que estarão disponíveis num futuro próximo.

CANCER AND CONSEQUENCES
Paulo Cesar Naoum, biologist, PhD in clinical biochemistry, director of the Technology and Science Academy of São Jose do Rio Preto, SP, Brazil.
Cancer starts when cells in our bodies start to reproduce out of control, forming new abnormal cells. These abnormal cells lumps, known as tumours. If the cells from tumours cannot spread, then the tumours are benign. They are not cancerous and can usually be removed. If the cells are able to invade healthy tissue and organs, causing further tumours to grow, then the tumours are malignant. These cells are cancer cells and are likely to spread if untreated.
What causes cancer?
Every cell in our body contains DNA. It carries our genetic code and contains the instructions for all cell’s actions. If the DNA inside cells is damaged, these instructions go wrong. Most the time the cells repair the DNA or die. But cancer cells do not die. Instead they starts to follow instructions that make them reproduce and grow, producing more and more cancer cells. These new cells in turn will contain the mutated DNA. Smoking or too much exposure to the sun can trigger DNA damage. A family history of cancer can also increase chances of getting the disease. Even when in remission, those who have had the disease have a higher risk of it developing again. In most cases, however, the cause is not yet known. A recent study has found that there are more than 80 genetic markers that can increase the risk of developing breast, prostate or ovarian cancer. Scientists believe the results could soon lead to DNA testing for cancer.

Why is it so deadly?

Cancer cells are able to invade other parts of the body, where they grow and form new tumours. They spread by getting into the bodys’s blood on lymph vessels and travelling to other parts of the body. For example, if bowel cancer has spread through the wall of the bowel itself, it can start growing on the bladder. If cells enter the bloodstream they can travel to distant organs, such as the lungs or brain. Over time, the tumours will the replace normal tissue. The process of cancer cells spreading is called metastasis. Once a cancer has started to spread beyond its original site, known as primary tumour, the chances of a cure often begin fall, as it becomes more difficult to treat. Cancer harms the body in a number of ways. The size of tumour can interfere with nearby organs or ducts that carry important chemicals. For example, a tumour on the pancreas can grow to block the bile duct, leading to the patient developing obstructive jaundice. A brain tumour can push on important parts of the brain, causing blackouts, fits and other serious healthy problems.

Why is it so hard to stop?

Cancer is an extremely complex condition. Each type of cancer is biologically different from any other type. For example, skin cancer is biologically different from the blood cancer called lymphoma, of which there are then hundreds of different types. That is then coupled with genetic differences between individuals and the random nature of DNA mutations that causes cancer. All this makes effective treatments hard to develop. Early surgery to remove tumours can work. But the cancer can return if cells have broken away from the primary tumour before an operation to remove it. However, cancer cells are together of normal cells in our bodies, so, many treatments to destroy them also risk destroying our healthy cells.
One controversial theory of why cancer is so hard to stop is that it is rooted in the ancient traits of our genes. Professor Paul Davie from Arizona State University believes cancer may use tried-and-tested genetic pathways going back a billion years to the dawn of multicellular life, when unregulated cell growth would have been an advantage. He argues that this tendency was suppressed by later more sophisticated genes, but lies dormant in all living organisms. Cancer occurs when something unlocks these ancient pathways. Other scientists disagree, saying that these pathways would not have survived millions of years of evolution.
The future of cancer research
The field of cancer research is moving away from defining a cancer by where it is in the body, as one type of breast cancer can have more in common with an ovarian cancer than another cancer in the breast. Instead scientists are looking deeper at what is going wrong inside cancerous cells – a tumour can have more 100,000 genetic mutations and these alter over time. By pinpointing the mutation can cause certain cancers, doctors hope to personalize treatment, choosing the drug most likely to work on particular type of tumour. Scientists are creating targeted cancer therapies using their latest insights into cancer at as molecular level. These treatments block the growth of cancer by interfering with molecules specifically involved in tumour growth and progression. Clinical trials using genes therapy are also underway. This experimental treatment involves adding genetic material into a person’s cells to fight on prevent disease.

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