NOSSAS DEFESAS CONTRA O CÂNCER

Paulo Cesar Naoum – Biomédico, Professor Titular em Biologia pela UNESP, Diretor da Academia de Ciência e Tecnologia de São José do Rio Preto, SP, Brasil.

A origem do câncer humano ocorre quando uma ou mais células normais de um tecido ou órgão sofrem mudanças no DNA de genes que controlam a divisão, o amadurecimento e o tempo de vida celular. Essas mudanças transformam células normais em anormais, muitas das quais com tendência de se tornarem tumorais. Quando isso acontece, as células anormais alteram suas produções de proteínas, enzimas e hormônios, dependendo do tecido em que elas estão inseridas, e que podem ser detectadas por análises laboratoriais. Durante o processo em que células normais estão se transformando em anormais ocorre um fenômeno biológico, ou seja, as células afetadas tentam corrigir as mudanças em seus DNA, e isso é feito através de genes conhecidos por genes de reparo de DNA. Na maioria das vezes as correções têm sucessos e as células afetadas retornam às suas funções de células normais. Entretanto, há situações em que os genes de reparo de DNA não conseguem corrigir os defeitos nas moléculas de DNA, e nesses casos essas células acionam determinados genes que as induzem ao “suicídio celular” ou apoptose. Esses genes são conhecidos por anti-oncogenes ou genes supressores de tumor. O ser humano tem centenas de genes supressores de tumor e os mais conhecidos são os genes p53, BRCA1 e BRCA2, entre outros. Os genes supressores de tumor, na maioria das vezes, evitam que as células anormais evoluem e formem células tumorais. Porém, há situações em que falham as duas formas de proteção efetuadas pelos genes de reparo de DNA e genes supressores de tumor (figura 1).

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Figura 1- Microscopia eletrônica das duas cromátides de um cromossomo o que permite visualizar duas duplas de genes, azuis e vermelhos. Corado pelo método de Hibridização In Situ por Fluorescência (FISH) é possível supor para efeito didático que os dois genes azuis poderiam ser genes de reparo, enquanto que os dois genes vermelhos poderiam ser genes supressores de tumor.

Quando isso ocorre as células tumorais começam a se acumular no tecido ou órgão e passam a produzir lesões inflamatórias, acompanhadas de novos vasos sanguíneos e linfáticos (neoangiogeneses) em direção ao foco tumoral. Entretanto, há de se destacar que a inflamação de um tumor primário é um alerta biológico de agressão ao tecido ou órgão em que o mesmo está implantado. Durante o desenvolvimento tumoral composto por centenas de células tumorais há o desencadeamento de várias alterações metabólicas na região tecidual, e esses fatos atraem ações de defesas imunológicas que podem destruir o tumor ou cercear o seu crescimento. Nesse aspecto, as células tumorais primárias são atacadas especificamente por macrófagos dos tipos M1 e M2, e por células T citotóxicas (ou linfócitos T CD8), principalmente. A figura 2 mostra a ação de um macrófago contra uma célula tumoral e a figura 3 mostra vários linfócitos T citotóxicos atacando uma célula tumoral agressiva (observar suas projeções citoplasmáticas).

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Figura 2 – Macrófago fagocitando uma célula tumoral corada de vermelho. Os macrófagos do tipo M1 são mais eficazes para neutralizarem o crescimento de um tumor (Science, 339:286-291, 2013).

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Figura 3- Quatro linfócitos citotóxicos T CD8 atacando uma célula tumoral do tipo “agressiva”.

A ação desse conjunto de defesas imunológicas antitumoral é sempre muito eficiente e devastador contra as células tumorais. Entretanto, situações de estresse, depressão e doenças crônicas fragilizam o sistema imunológico, desequilibram as ações antitumorais e dão chances ao desenvolvimento tumoral. Por fim, é sempre importante destacar que a transformação de células normais em tumorais pode demorar entre alguns meses a muitos anos, sem que se perceba a presença do tumor, quer seja por avaliações clínica, laboratorial ou por imagens. Em diagnósticos por imagens, por exemplo, o tumor só se torna perceptível ao atingir o tamanho acima de seis milímetros (figura 4), enquanto que na avaliação clínica mediada por marcadores tumorais apropriados e com boas sensibilidades e especificidades, o tumor pode ser detectado com mais precocidade, ou seja, quando seu tamanho é de apenas dois milímetros.

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Figura 4- A imagem de mamografia à esquerda mostra um tumor primário de mama com tamanho próximo de um 1 cm ou 10 mm. A imagem à direita, por sua vez, foi montada virtualmente para exemplificar a relação entre tamanho do tumor de 1 cm com a dimensão da mama.

Destaca-se, no entanto, que a evolução de um tumor de dois milímetros para seis milímetros de tamanho pode demorar entre alguns meses a muitos anos, dependendo do tipo de tumor. Por essa razão, há várias formas de se precaver contra o câncer por meio da realização de exames preventivos dos tumores mais frequentes em homens (tumor de próstata) e em mulheres (tumor de mama). Finalmente, é sempre importante estar alerta para os dez principais sinais relacionados com a presença de tumores, conforme se segue:

1- Sangue na urina
2- Sangramento anal
3- Sangramento ao tossir
4- Sangramento pós-menopausa
5- Sangramento crônico nas gengivas (após escovar os dentes)
6- Anemia persistente
7- Nódulo(s) na mama (auto-apalpação)
8- Nódulos no pescoço, axilas e virilha
9- Nódulo(s) na próstata (exame do toque retal)
10- Dificuldades ao engolir

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