UMA DROGA-ALVO MOLECULAR CAPAZ DE REGENERAR AS CÉLULAS TUMORAIS

Paulo Cesar Naoum, biomédico, professor titular pela UNESP e diretor da Academia de Ciência e Tecnologia de São José do Rio Preto, SP, Brasil.

 

A imensa oferta de opções terapêuticas à disposição da oncologia para o tratamento de diversos tipos de câncer humano demonstra que foram feitos muitos  progressos científicos e tecnológicos relacionados com essa doença. Após o ano de 2001, quando o genoma humano foi desvendado e milhares de genes foram relacionados com vários tipos de doenças, as pesquisas de fármacos com especificidades para atuarem em produtos anormais sintetizados por oncogenes, por exemplo, obtiveram grandes avanços e passaram a ser incluídos num novo grupo do arsenal terapêutico contra o câncer conhecido por  drogas-alvos antitumorais.  Essa nova tendência terapêutica contra o câncer veio   somar com as drogas de bases imunológicas, as imunoterapias, desenvolvidas a partir dos anos 80 do século passado e  seus resultados efetivos também se caracterizam pelas várias opções às estratégias terapêuticas de drogas-alvos. Essas duas formas de drogas alvo, uma fundamentada na fármaco-genética e outra na especificidade imunológica de tipos diferentes de células tumorais, já fazem parte de uma das definições terapêuticas bem estabelecidas. Por fim, desde 2005 pesquisas se acumulam para duas novas estratégias terapêuticas, quais sejam: a modulação imunológica das células T, tornando-as competentes para combaterem células tumorais específicas, e o bloqueio de organelas celulares que, guiadas por anticorpos monoclonais específicos para receptores de células tumorais os quais levam  produtos químicos sintéticos construídos para  inibirem o funcionamento de organelas, por exemplo, as proteassomas e  microtúbulos . É possível que a abrangência de medidas preventivas associadas com diagnósticos precoces e drogas imunomoduladoras faça do câncer uma doença cujo controle seja muito mais efetivo que nos dias atuais. Entretanto,  em 2012 surgiu uma nova forma de tratamento, a terapia-molecular. Como se sabe, aproximadamente 50% dos cânceres se devem ao mal funcionamento do gene P53, quer seja por inibição da produção da proteína pró-apoptótica P53 que determina a morte de células velhas e de células anormais, principalmente das tumorais, ou da mutação do gene P53, que produz moléculas mutantes de proteínas P53 sem funções pró-apoptóticas. Recentemente uma startup de bioengenharia na Suécia, a  Aprea AB, projetou uma droga composta por poucos aminoácidos que mimetiza estruturalmente a ausência de uma parte da molécula que a torna mutante. Assim, a droga quando ministrada ao portador de tumor busca se inerir na parte defeituosa da proteína P53, mimetizando-a como se fosse normal. Dessa maneira a proteína P53 “consertada” passa a funcionar normalmente, induzindo a célula tumoral à morte. A referida droga foi  denominada por APR-246 e testada em 2012 em pacientes com tumores causados por pP53 mutantes. Os efeitos foram excepcionalmente benéficos, com regressão dos tumores. Atualmente os experimentos encontram-se na fase 2 dos testes clínicos em mulheres com câncer de ovário e, provavelmente, em dois anos estarão disponíveis para serem comercializadas. A aula homônima em vídeo mostra por meio de modelos didáticos e dinâmicos a forma de como ocorre o processo biológico no interior da célula.

Fonte: Service R. Science, vol. 354, pg: 26-28, 2016.

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