TERAPIAS ANTICÂNCER HUMANO E SEUS ALVOS NAS

CÉLULAS TUMORAIS

Paulo Cesar Naoum

Flávio Augusto Naoum

 

Introdução

As terapias anticâncer com ênfase às suas ações contra as células tumorais é um dos conhecimentos mais complexos entre todos aqueles que compõe a biologia médica de forma geral e da biologia celular em particular. As dificuldades encontradas até o momento para o tratamento de tumores se devem, principalmente, à natureza das modificações que ocorrem nas células tumorais dos diferentes tipos de câncer, bem como dos  dinâmicos processos  que causam as transformações de células normais em tumorais (quadro 1).  Amparados pelos conhecimentos que se dispõe atualmente nesta área do conhecimento, médicos e pesquisadores  têm empregado diferentes estratégias com o objetivo de obter formas de tratamentos que resultam em benefícios temporários ou definitivos para o câncer humano. Apesar do câncer ser uma doença milenar,  a busca de resoluções com bases científicas têm pouco mais      de cem anos.  O primeiro tipo de tratamento de câncer com fundamentação científica foi realizado no início do século passado por meio do uso do radium, elemento radioativo que deu origem à radioterapia. Em seguida, durante  o período da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foram realizadas  as primeiras experiências com o gás mostarda, um tipo de arma química que causava supressão celular na medula óssea das pessoas atingidas.  Por essa razão, o gás mostarda foi usado como tratamento para pessoas com leucemias e linfomas após 1918, e esse evento pode ser considerado como o princípio da quimioterapia contra o câncer. Entretanto, o interesse pelas células do câncer aumentou devido a um acontecimento inesperado que ocorreu em 1951 no Hospital Johns Hopkins de Baltimore, USA. Pesquisadores desse hospital descobriram  que as células tumorais extraidas de um câncer de colo de útero de uma mulher identificada como Henriette Lacks,  tinham a capacidade de se reproduzirem continuamente, como se fossem imortais, em meios de culturas apropriados para esse fim. Suas células tumorais denominadas de HeLa, sigla extraída das letras iniciais do nome e sobrenome da doadora,  impulsionaram  importantes progressos científicos em testes terapêuticos contra os diversos tipos de câncer humano. Outro grande progresso no conhecimento das células tumorais ocorreu na década de 80 do século passado, quando tecnologias fundamentadas em conhecimentos sobre a composição molecular das células começaram a ser aplicadas com objetivos de interferirem em reações químicas pontuais que alteram as sinalizações celulares.  Entre essas tecnologias, a imunoterapia antitumoral obteve progressos excepcionais, com destaque para a modalidade terapêutica fundamentada na produção de anticorpos monoclonais dirigidos contra receptores transmembrana. O exemplo mais conhecido de imunoterapia antitumoral é a droga Trastuzumab, que atua bloqueando os receptores transmembrana Her-2,  através dos quais penetram hormônios   importantes para vida das células tumorais das glândulas mamárias. Uma outra modalidade da imunoterapia é a dos imunomoduladores,  desenvolvida no sentido de controlar as células que fazem a vigilância imunológica antitumoral. O exemplo de sucesso dessa modalidade terapêutica é a droga Nivolumab,  que retarda a morte natural, ou apoptose, dos macrófagos. Os macrófagos do tipo M2, por exemplo, são importantes células da vigilância imunológica que atuam em tecidos inflamatórios tumorais no sentido de fagocitar as células tumorais, facilitando, assim, a ação complementar de outras terapias, por exemplo, quimioterapia ou radioterapia, usadas para o tratamentos da maioria dos tumores (1, 2, 3).

Entre os projetos terapêuticos mais audaciosos que também tiveram início nas décadas de 80 e 90 do século passado, destacam-se as drogas  produzidas  pela  bioengenharia médica. São drogas sintetizadas  com componentes químicos  com tamanhos, formas e especificidades desejadas para bloquearem ou regularem diversos tipos de sinalizações tumorais, evitando, dessa forma, que  células tumorais se proliferem indefinidamente. Entre os exemplos desses tipos de drogas destaca-se o Tamoxifeno que atua como modulador seletivo de receptores de estrogênio, hormônio importante para o desenvolvimento das células glandulares da mama, normais ou tumorais. Entretanto o exemplo de sucesso da bioengenharia biomédica foi a produção da droga Mesilato de Imatinibe, usada  no tratamento da leucemia mielóide crônica cromossomo Philadelphia  positivo (Ph+). Este tipo de leucemia se desenvolve por meio dos rompimentos de determinadas partes dos cromossomos 9 (abl) e 22 (bcr) e, em seguida, das junções  entre as partes quebradas do cromossomo 9 com a do cromossomo 22 (bcr-abl), formando um cromossomo hibrido anormal denominado por Philadelphia positivo. Essa junção de partes de diferentes cromossomos é conhecida por translocação cromossômica faz com que se formam  um gene quimérico identificado como bcr-abl. Este gene, com tendência funcional tumoral, produz, por sua vez, uma enzima do tipo quinase hiperativa que adiciona intensamente grupos fosfatos  (fosforilação) às proteínas que tem o aminoácido tirosina. A fosforilação dessas proteínas gera contínua liberação de energia em forma de adenosina trifosfato (ATP), que induz algumas sinalizações celulares em leucócitos da medula óssea, notadamente as células imaturas precursoras de neutrófilos, a se dividirem sem controle. Destaca-se, entretanto,  que o Mesilato de Imatinibe foi uma descoberta desencadeada por uma conjunção de achados científicos ao acaso. Primeiramente, em 1976, pesquisadores japoneses extraíram de  bactérias marinhas (Streptomyces staurosporeus) uma proteína cuja molécula tinha forma em cruz de Malta desigual e que recebeu a denominação de estaurosporina. Esse achado  chamou a atenção para o fato de que essa molécula tinha a forma e tamanho similares aos das cavidades moleculares onde a maioria das enzimas quinase se acumulam para fosforilar tirosina e, assim, gerar energia em forma de ATP para  sinalizar a divisão celular. A descoberta inspirou pesquisadores da indústria farmacêutica Ciba-Geise a produzir em laboratório uma droga (Gleevec®) feita com o sal de Imatinibe  e a  estrutura espacial similar à da eustaroporina, porém com tamanho e forma adaptáveis às cavidades moleculares do oncogene abl-bcr onde ocorre a sinalização leucêmica das células precursoras de neutrófilos, os blastos mielóides. Por conta dessa descoberta, muitos pacientes com leucemia mielóide crônica ao serem tratados com esta droga podem  viver livre da doença por longos períodos (3, 4).  Pesquisas mais recentes  e audaciosas  estão sendo  efetuadas por meio do uso da nanotecnologia e de nano-robôs, também conhecidos por  nano-partículas  terapêuticas. Projetadas para atuarem apenas contra as células tumorais de um determinado tumor, as nano-partículas  são compostas por uma camada de polímeros biodegradáveis, contendo, em sua parte externa, produtos que  se encaixam perfeitamente em receptores de membranas de células tumorais, e, em sua parte interna, um espaço para o transporte de drogas quimioterápicas com  alvos citoplasmáticos ou nucleares definidos, capazes de destruírem apenas as células tumorais. Essa forma de terapia-alvo contra células tumorais  ainda está em processo  de experimentação clínica, mas a sua importância se destaca por preservar células normais do próprio tecido tumoral e de suas adjacências. Entretanto alguns problemas precisam ser resolvidos com relação às nanopartículas terapêuticas, notadamente com relação às formas de como essas nano-partículas seriam direcionadas para células tumorais e, em seguida, identificar que processos seriam necessários para retirar do corpo dos pacientes o “lixo” quimioterápico das células eliminadas.

Ao completar esse breve relato sobre o extraordinário desenvolvimento científico e tecnológico das terapias antitumorais, é importante  destacar, também, as diversas estratégias médicas para  diagnósticos precoces ou preventivos de tumores. Entre essas sobressaem as análises moleculares,  imunológicas   e    de imagens, todas com especificidades definidas pelos oncologistas dos pacientes com câncer. Recentemente, com o auxílio da física médica, obteve-se progressos em  análises de imagens que permitem identificar determinados tipos de metais em excesso, com destaque para o cobre,  que se acumulam em certos tipos de tumores. Os resultados dessas análises facilitam, além do diagnóstico precoce e preventivo de alguns tipos de tumores, o acompanhamento do desempenho terapêutico  de tumores primários e metastáticos submetidos aos diversos  tratamentos exemplificados acima (5).

 

 

Quadro 1- Cinco indicadores que explicam a complexidade da célula tumoral com impactos nas respostas terapêuticas.

 

  • – A maioria dos cânceres humanos é causada por duas a oito alterações celulares sequentes durante um período entre 5 e 30 anos. Participam das transformações de células normais em tumorais cerca de 140 genes denominados de genes Mut-drivers.
  • – Cada uma dessas alterações aumenta de forma direta ou indireta o tempo de vida da célula tumoral, promovendo, inclusive, vantagens seletivas, por meio de mecanismos epigeneticos. Participam da qualificação seletiva das células tumorais mais de 200 genes denominados de genes Epi-drivers.
  • – Os genes Mut-drivers e genes Epi-drivers das células tumorais regulam as funções de suas vias de sinalização celular, notadamente em relação às funções básicas de divisão, diferenciação, mobilidade e morte celular, bem como na manutenção do genoma tumoral. 4 – Para cada tipo de tumor, ainda que tenha a mesma classificação histopatológica, há diferenças genéticas que atualmente podem ser identificadas por meio de técnicas de biologia molecular e, assim, facilitam diagnósticos precoces e preventivos para diversos tipos de tumores, tornando-se  essenciais para a redução da morbidade e mortalidade do câncer.

5 – A heterogeneidade genética entre as células de um mesmo tipo de tumor pode ter impacto no sucesso ou insucesso da resposta terapêutica.

 

Fonte: Vogelstein et al, 2004 (6).

 

 

Biologia antitumoral da radioterapia

A radioterapia pode ser considerada a primeira forma de terapia celular anticâncer com fundamentações científicas. Sua ação físico-biológica  decompõe principalmente as moléculas de DNA presentes em genes relacionados  com a divisão celular. O impacto das radiações eletromagnéticas ionizantes (Raio-X e Raio-Gama) e as partículas radioativas (alfa, beta, prótons e nêutrons), todas provenientes do que se considera por energia nuclear, atuam de forma direta na desagregação das bases nitrogenadas do DNA e, de forma indireta, por meio de intensa geração de radicais livres intracelulares. Especificamente, na forma direta, as partículas radioativas destroem ou bloqueiam a ação de genes importantes envolvidos nos processos de progressão de células tumorais, enquanto que, na forma indireta, os radicais livres promovem importantes desequilíbrios metabólicos nas células tumorais que inviabilizam a continuidade de suas vidas. Por se conhecer com mais clareza os efeitos da geração de radicais livres induzidos pela radioterapia, foi possível entender porque alguns tumores são mais susceptíveis que outros quando submetidos às irradiações terapêuticas. Tumores que são mais oxigenados, ou sejam, aqueles localizados em áreas de intensa vascularização, respondem melhor à radioterapia do que os tumores localizados em áreas com pouca oxigenação. Por conta dessa forma de resposta terapêutica, verifica-se que as células tumorais localizadas nas regiões periféricas de um determinado tumor, portanto, com melhor nível de oxigenação, são afetadas com mais intensidades pelos efeitos da irradiação, enquanto que aquelas que estão nas regiões  centrais e  com menos oxigenação à sua disposição, são menos afetadas por esse tipo de tratamento. A explicação para esse comportamento diferente se deve ao fato de que os radicais livres intracelulares gerados pela irradiação reagem com átomos  de oxigênio celular disponíveis nas próprias células, formando compostos moleculares conhecidos como espécies ativadas de oxigênio. Entre esses compostos sobressaem o íon hidroxila (HO*), a superóxido dismutase (O2*) e o peróxido de hidrogênio (H2O2). O íon hidroxila, em especial, é muito lesivo às moléculas de DNA que compõe a maioria dos oncogenes indutores de tumor, inviabilizando a vida das células tumorais . Apesar de as células normais também serem atingidas pela irradiação, o benefício da radioterapia se dá porque as células tumorais tem menos capacidade biológica para se recuperarem dos danos moleculares  gerados pelos efeitos  radioativos, enquanto que as células normais o fazem com mais competência. Além disso, os danos às células normais foram sendo minimizados à medida que as tecnologias de irradiação tornaram-se mais especializadas em atingirem com mais intensidade as células componentes do tumor (7,8). A figura 1 mostra a relação entre vascularização, oxigenação, espécies ativadas de oxigênio e morte de células tumorais submetidas a radioterapia.

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Figura 1- Relação entre vascularização, oxigenação,  espécies ativadas de oxigênio e morte das células tumorais submetidas à radioterapia.  (a) células normais em um tecido: as células de cor laranja são mais oxigenadas por estarem próximas à rede de  vascularização sanguínea, enquanto que as de cor marrom são menos oxigenadas por estarem no centro do tecido em região menos vascularizada; (b) tumor primário:  células normais se tornaram tumorais nas regiões periféricas e vascularizadas, bem como na região central e menos vascularizada; (c)  tumor submetido às irradiações:  nos ciclos iniciais da radioterapia, a maioria das células tumorais mais oxigenadas são destruídas, enquanto que a maioria das células tumorais centrais permanecem vivas; (d)  ciclos sequentes a irradiação: a irradiação tem a capacidade de destruir o que restou das células tumorais centrais.

 

 

Cito-especificidades da ações de drogas antitumorais

A imensa oferta de opções terapêuticas à disposição médica para os diversos tipos de câncer mostra que, para acompanhar o contínuo ritmo de progressos científicos e tecnológicos relacionados  com essa doença, é preciso inventar e reinventar processos, considerar e desconsiderar conceitos, sempre com o objetivo de melhorar cada vez mais as estratégias para diagnostica-la e trata-la adequadamente. Apesar de presentemente ocorrer uma certa consolidação referente aos  tratamentos padrões para os tipos de tumores e de câncer mais frequentes, é necessário descobrir de fato qual é a estratégia mais eficaz para combater os tumores primários e os cânceres metastáticos, sem comprometer o crescimento e o desenvolvimento das células normais. Considerando as documentações científicas mais atualizadas e confiáveis que dispomos até o presente sobre a biologia das células normais e tumorais,  bem como aquelas relacionadas com os comportamentos da progressão de tumores e dos efeitos epigenéticos  induzidos por hábitos pessoais deletérios e   ambientes desfavoráveis à saúde, foi possível estabelecer três situações que poderiam  contribuir para o direcionamento terapêutico do câncer, quais sejam:

  1. Identificação laboratorial das mutações condutoras, conhecidas por mut-drivers, de cada tipo de tumor, preferencialmente dos tumores mais frequentes, com o objetivo de usar terapias adequadas para bloquearem as ações patológicas dos principais oncogenes, assim como também para estimularem  genes supressores de tumores a funcionarem adequadamente (3).
  2. Identificação do comportamento de cada tipo ou de cada grupo de tumores, fundamentando-se na compreensão do funcionamento dos principais genes envolvidos e de suas trajetórias de sinalizações. Conhecendo genes e trajetórias será possível prever a progressão dos tumores e de cânceres e, assim, estabelecer intervenções terapêuticas mais sensíveis para  bloquearem suas ações (9).
  3. Prevenção dos cânceres relacionados com as mutações epigenéticas, conhecidas por epi-drivers, e que estão relacionadas com o comportamento das pessoas (hábitos e ambientes não saudáveis), provendo-os com as principais informações sobre os fatores capazes de  transformarem células normais em tumorais (10).

 

A fármaco-genética das drogas antitumorais, por exemplo, obtiveram nos últimos vinte anos progressos somatórios que melhoraram a relação uso/benefício das terapias direcionadas ao tratamento de tumores primários e  cânceres metastáticos, tendo por base suas ações em diferentes fases do ciclo celular. A figura 2  resume esquematicamente essa relação.

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Figura 2- Relação entre fases do desenvolvimento celular, ou ciclo celular, e as ações de diferentes  grupos de drogas anti-tumorais.

 

Apresentamos, a seguir, 17 grupos de drogas  utilizadas com frequência na terapia do câncer,             suas    ações específicas nas células tumorais (citoespecificidades), e os tumores mais sensíveis à cada grupo de drogas, conforme se segue:

 

  • Drogas alquilantes e instabilizadores de DNA tumoral
  • Agentes antimetabólitos
  • Antibióticos inibidores de nucleotídeos
  • Drogas hipometilantes
  • Drogas anti-radicais livres
  • Inibidores de receptores intracelular de hormônios
  • Inibidores de enzimas de transformação hormonal
  • Inibidores de angiogênese
  • Inibidores de tirosina-quinase
  • Inibidores das proteassomas
  • Inibidores dos microtúbulos
  • Inibidores de mTor
  • Inibidor de PI3Ks
  • Inibidores da desacetilização das histonas
  • Inibidor da via de Hedgehog

16-Anticorpos monoclonais  anti-tumorais

17-Indução de mecanismos biológicos  anticâncer

 

1-Drogas alquilantes e instabilizadoras  de DNA tumoral 

Ação biológica: são drogas que tem em sua composição um componente químico, os radicais alquil (H2C*−R), que ao se introduzirem entre as estruturas moleculares do DNA através de seus elétrons livres (H2C*−), impedem que os oncogenes efetuem suas funções, notadamente àquelas relacionadas com a divisão das células tumorais. Dependendo do tipo da droga usada,  a forma de alteração na estrutura do DNA é diferente. Atuam em vários tipos de tumores, afetando suas células em todas as fases do ciclo celular (11, 12). A figura 3 representa a forma genérica da ação.

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Figura 3 – A maioria das drogas alquilantes  atuam em moléculas de DNA de vários genes celulares principalmente aqueles relacionados com a divisão celular.  As drogas que incluem platina a seus complexos abreviam o tempo de vida das células tumorais (apoptose provocada). As cito-especificidades de cada grupo de drogas alquilantes e os tumores afetados estão expostas no texto.

 

 

 

 

Cito-especificidades de algumas drogas alquilantes e os principais tumores afetados:

Melfalan, alkeran e fenilalanina mostarda:  os radicais alquil dessas  drogas se introduzem entre as ligações das bases nitrogenadas guanina-adeninaTumores afetados: mama, linfoma não-Hodgkin, mieloma múltiplo, sarcoma osteogênico, entre outros.

Leukeran, treanda, mustargen, cytoxan: são drogas que tem por base a mostarda nitrogenada, cujos componentes químicos se interpõe entre as bases nitrogenadas guanina-guanina, principalmente.

Tumores afetados: doença de Hodgkin, leucemia linfocítica crônica, entre outros. Bussulfan: são drogas sulfonadas em que seus radicais alquil se interpõem entre as ligações das bases nitrogenadas guanina-alanina.

Tumores afetados: leucemias, linfomas, doenças mieloproliferativas, entre outros.

Cisplatina, carboplatina, oxaliplatina: são drogas em que a platina ocupa a região central  dos complexos químicos que as compõem . São potentes agentes antitumorais, notadamente quando usados em associação com outras drogas quimioterápicas. Atuam desestabilizando o DNA por se introduzirem entre as ligações das bases nitrogenadas adenosina-citosina.

Tumores afetados: testículos, ovários, bexiga, esôfago, garganta, próstata, entre outros.

Gemcitabina: é uma droga que tem a estrutura molecular muito similar à base nitrogenada citosina. Por essa razão, a droga ao entrar na célula se ajusta facilmente à estrutura do DNA nas regiões que têm citosina, desestabilizando o DNA e induzindo a apoptose das células tumorais. Essa droga potencializa a ação das drogas com platina (cisplatina, carboplatina e oxaliplatina) intensificando a destruição de células tumorais.

Tumores afetados: pulmão, bexiga, mama, pâncreas, entre outros.

 

 

 

2- Agentes antimetabólicos

Ação biológica:  inibem a síntese de DNA e RNA impedindo a divisão celular, notadamente quando se encontram na fase S do ciclo celular. As células tumorais por terem ciclos celulares mais rápidos são mais afetadas que as normais. Entre os antimetabólitos mais ativos destacam-se aqueles que bloqueiam os folatos (antifolatos). Os folatos  atuam fornecendo os compostos químicos necessários para formarem as bases nitrogenadas adenina, citosina, guanina e timina que compõe as moléculas de DNA e RNA de genes normais e tumorais (13, 14). A figura 4 identifica a forma de ação das drogas antimetabólitos.

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Figura 4 – Ação genérica dos agentes antimetabólitos com bloqueio da oferta de bases nitrogenadas para DNA e RNA. As cito-especificidades dessas  drogas e os tumores afetados estão expostas no texto.

 

 

Cito-especificidades dos agentes antimetabólitos  e os principais tumores afetados:

Hidroxiuréa: bloqueia a oferta de componentes químicos do ácido fólico e de outros folatos  para comporem as moléculas de DNA e RNA, inibindo, principalmente, os genes relacionados com a divisão celular.

Tumores afetados:  leucemia mielóide crônica, ovário, melanoma, vários tipos de tumores de cabeça e pescoço, entre outros.

Metotrexato, ametopterina e aminopterina: ação bloqueadora similar à descrita para hidroxiuréia.

Tumores afetados: leucemia linfoblástica aguda, entre outros.

Pemetrexede, citarabina, fluoracil: ação bloqueadora similar à descrita para hidroxiuréia.

Tumores afetados: leucemia mielóide aguda, tumor de não pequenas células não escamosas do pulmão, mesotelioma pleural maligno, entre outros.

 

 

3- Antibióticos inibidores de nucleotídeos

Ação biológica: esses antibióticos contém produtos químicos que se inserem  entre as ligações das bases nitrogenadas de DNA de vários genes, interrompendo processos genéticos em diversas fases do ciclo celular. Entre os produtos químicos usados destacam-se aqueles com  anéis insaturados que liberam excessiva carga de elétrons para o interior das células, gerando altas concentrações de radicais livres que alteram notadamente as reações enzimáticas das células tumorais. As células tumorais sob esse estresse químico se tornam ineficientes e passam a ser alvos fáceis  das células do sistema imunológico, especialmente dos macrófagos, que as eliminam (15, 16). A figura 5 identifica a forma de ação dos antibióticos inibidores de nucleotídeos.

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Figura 5- Ação genérica dos antibióticos inibidores de nucleotídeos e geradores de radicais livres. Os inibidores de nucleotídeos bloqueiam a ação de vários oncogenes impedindo as células tumorais de se dividirem, além de induzi-las à morte. Os radicais livres em excesso produzem alterações em reações enzimáticas das células tumorais, tornando-as ineficazes e alvos fáceis para serem eliminadas por macrófagos.

Cito-especificidades dos antibióticos inibidores de nucleotídeos e os principais tumores afetados:

Antraciclinas (doxorrubicina, epirrubicina e daunorrubicina): interferem na divisão celular pelo fato de induzir intensa geração de radicais livres que se compõe com o oxigênio celular formando espécies ativadas de oxigênio. Uma dessas espécies ativadas, o radical alquil ou HO*, rompe as duplas hélices do DNA de oncogenes das células tumorais tornando-as inviáveis para se dividirem, abreviando, inclusive, o tempo de vida celular.

Tumores afetados: leucemia mielóide crônica, linfomas não-Hodgkin, entre outros.

Mitomicina C e bleomicina: inserem radicais alquil (alquilação) entre os nucleotídeos das moléculas de DNA e RNA, interrompendo várias fases do ciclo celular.

Tumores afetados: linfoma de Hodgkin

Actinomicina D: atua por meio do bloqueio de nucleotídeos de genes relacionados com as reações enzimáticas das células tumorais. As células afetadas tornam-se alvos  dos diversos sistemas de defesa imunológica, interrompendo o crescimento tumoral.

Rapamicina: tem função citostática por inibir as funções de mTOR raptor e mTOR rictor da sinalização celular de Akt, evitando, entre outras ações tumorais, a angiogênese. Essa inibição ocorre na fase G1 do ciclo celular (17). Ver explicação adicional no item 12: Inibidores de mTOR.

 Tumores afetados: usados no tratamento auxiliar de vários tipos de câncer.

 

4- Drogas hipometilantes

Ação biológica: os mecanismos epigenéticos envolvidos na origem do câncer podem causar, entre outras formas de induções tumorais, a metilação das moléculas de DNA  de vários genes importantes na regulação do ciclo celular, bem como afetar o funcionamento das moléculas de RNA. A metilação se caracteriza, por exemplo, pela reação entre um radical metil (H3C−) de um produto carcinogênico com uma ou mais base nitrogenada citosina. Ao se ligarem com a citosinas de moléculas de DNA de  genes envolvidos com a divisão celular, as funções desses genes  se descontrolam e podem  transformar células normais em  tumorais. Se essa ligação ocorrer, por sua vez, em genes supressores que controlam o tempo de vida das células, os mesmos poderão ser bloqueados em seus controles da apoptose  e as células afetadas poderão se tornar imortais,    transformando-se, geralmente, em   células tumorais (18, 19, 20). A figura 6 exemplifica a forma de ação das drogas hipometilantes.

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Figura 6- Ação genérica das drogas hipometilantes. O bloqueio da enzima DNA metiltransferase efetuado por drogas hipometilantes evita que radicais metil provenientes de produtos carcinógenos se introduzam nas moléculas de DNA e RNA e se liguem às bases nitrogenadas de citosinas.

Cito-especificidades das drogas hipometilantes e os principais tumores afetados :  Azacitidina:  inibe a metilação somente do DNA através do bloqueio da enzima DNA metiltransferase.

Decitabina: inibe a metilação do DNA e do RNA através do bloqueio da enzima DNA metiltransferase.

Tumores afetados: síndrome mielodisplásicas, leucemia mielóide aguda, entre outros.

5- Drogas anti-radicais livres

Ação biológica: as terapias anticâncer efetuadas por meio de irradiações, ou de drogas, induzem excessiva geração de radicais livres nas células tumorais, bem como nas células normais. Embora os radicais livres sejam efetivos contra as células tumorais induzindo-as geralmente à morte, podem prejudicar, também, as células normais próximas ao tumor, quer sejam em suas funções ou na abreviação de seu ciclo vital. O uso de drogas anti-radicais livres busca recompor o equilíbrio químico das células normais, que por terem períodos de ciclos vitais mais longos em relação às tumorais, são beneficiadas por essa ação biológica. Duas drogas se destacam na recomposição celular, a vitamina C, que atua como antioxidante do líquido citoplasmático, e a vitamina E, que protege a membrana das células contra a oxidação dos ácidos graxos (21, 22). A figura 7 identifica as formas de ação das drogas anti-radicais livres.

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Figura 7- Ação genérica das drogas anti-radicais livres. A vitamina C (amarelo) auxilia as enzimas antioxidantes presentes no líquido citoplasmático a degradarem os compostos químicos instáveis, notadamente as espécies ativadas de oxigênio, gerados pelos  radicais livres. A vitamina E (azul) retarda a oxidação dos ácidos graxos (lipo-peroxidação) induzida por radicais livres que se interpõe entre a dupla camada lipoproteica da membrana citoplasmática.

Cito-especificidades das drogas anti-radicais livres e os principais tumores afetados:

Vitamina C: atua auxiliando as enzimas antioxidantes citoplasmáticas a decomporem os radicais livres, notadamente as espécies ativadas de oxigênio (HO*, H2O2, O2* ), em moléculas de H2O, restabelecendo o equilíbrio molecular da sinalização celular.

Vitamina E: é um composto lipossolúvel e por esta razão tem facilidade de se introduzir entre as duplas camadas lipoproteicas das membranas das células, protegendo-as contra a oxidação das cadeias de ácidos graxos poli-insaturados. Tumores afetados: usados como terapia auxiliar de vários tipos de câncer.

  • Inibidores de receptores intracelulares de hormônios

6.1- Tumor de  mama

Ação biológica: as células nucleadas, em geral, tem receptores intracelulares de hormônios. As glândulas mamárias, por exemplo, tem um receptor intracelular específico para o hormônio estrogênio, importante para desencadear as sinalizações químicas das células para divisão e diferenciação celular. Cerca de 2/3 dos tumores de mama tem células tumorais que dependem do estrogênio para dar continuidade à formação tumoral. Muitas dessas células têm, inclusive,  um maior número desses receptores em relação às células normais da mama, fato que induz  maior atividade das funções celulares, ou hiperexpressão celular. O desenvolvimento de drogas inibidoras de receptores intracelulares para o câncer de mama impede, em pelo menos 70% desses casos, que as células tumorais consigam estrogênio para suas funções, matando-as por  inanição celular (23, 24, 25). A figura 8 identifica duas drogas com suas formas de ações citostáticas por meio da inibição intracelular de hormônios.

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Figura 8 – Ação genérica dos inibidores de receptores intracelulares de hormônios. O Tamoxifeno se liga diretamente ao receptor  do estradiol, impedindo-o de se ligar com o estradiol disponível na célula e,  consequentemente, bloqueia as sinalizações para divisão  da célula tumoral.  O Fulvestranto  degrada o receptor  de estrogênio, impedindo que este hormônio efetue a sinalização para divisão da célula tumoral.

Citoespecificidades de inibidores intracelulares de hormônios e principais tumores afetados:

Tamoxifeno: atua como modulador seletivo dos receptores de estrogênio e age ligando-se ao receptor tumoral para estradiol, competindo com este hormônio. Por conta dessa ação citostática, a droga interrompe o ciclo celular nas fases G zero e G1.

Fulvestranto: atua por meio de ligações direta com o receptor de estrogênio, causando sua degradação e, consequentemente, interrupções de sinalizações químicas para divisão celular. Atua em várias fases do ciclo celular.

Tumores afetados: mama, entre outros.

6.2 – Tumor de próstata metastático

Ação biológica: as células da próstata necessitam do hormônio testosterona produzido no testículo para efetuarem seus ciclos vitais. A testosterona, ao entrar nas células prostáticas é transformada em subprodutos, entre os quais se destaca a dehidrotestosterona (DHT). A DHT tem estrutura molecular capaz de se ligar com o receptor de andrógeno (RA), que o introduz no núcleo da célula para induzir a divisão celular. Entre as principais origens do câncer de próstata destaca-se a falha do gene supressor P53, que normalmente tem a função de induzir a morte das células tumorais. Portanto, homens com   gene P53 defeituoso, quer seja por causas epigenéticas ou por deficiência hereditária, tem possibilidades de desenvolver, entre outros, o tumor de próstata. As células tumorais da próstata são ávidas de testosterona para sobreviverem, e entre as opções terapêuticas para evitar o desenvolvimento do tumor sobressaem as drogas que bloqueiam a síntese de testosterona, bem como aquelas  que bloqueiam os receptores de testosterona (26, 27).

Citoespecificidades de inibidores intracelulares de hormônios e principais tumores afetados:

Abiraterona: inibe a ação da enzima CYP17 que sintetiza andrógenos (testosterona) nos tecidos do testículo e glândula  suprarrenal,  bem como em tumores de próstata, impedindo o desenvolvimento das células tumorais. Enzatulamida: inibe de forma competitiva a ligação de andrógenos (DHT) com receptores de andrógenos (RA), impedindo que o composto RA-DHT penetre no núcleo da célula para estimular a divisão das células tumorais da próstata. Tumores afetados: próstata, entre outros.

7-Inibidores de enzimas de transformação hormonal

Ação biológica: em células normais da glândula mamária,  o hormônio androgênio  se transforma em  estrogênio por ação da enzima aromatase. O estrogênio é vital para os processos fisiológicos dessas células, principalmente para a divisão celular. As células tumorais da mama, entretanto, estão em contínuo processo de divisão celular e necessitam de altas concentrações de estrogênio. A inibição da enzima aromatase por drogas específicas prejudica o ciclo vital das células tumorais por inanição celular, abreviando-lhes seu ciclo vital (28, 29).  A figura 9 mostra a forma de interferência celular de drogas inibidoras da enzima aromatase. 

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Figura 9- Ação genérica dos inibidores da enzima aromatase na transformação de androgênio em estrogênio. O ciclo vital das células tumorais se torna inviável pela ação de inibidores da aromatase, abreviandolhes seu tempo de vida.

 

Citoespecificidade de inibidores de enzima de transformação hormonal e os principais tumores afetados:  

Exemestano, letrozole e anastrozol: são drogas que se ligam à enzima aromatase e inibem as ações químicas que transformam o hormônio androgênio em estrogênio, inviabilizando a vida das células tumorais da mama.

Tumores afetados: mama e endométrio, entre outros.

8- Inibidores de angiogênese

Ação biológica: a gênese de vasos sanguíneos nos tecidos, bem como em massas tumorais, está associada com as atividades de uma proteína específica conhecida por Fator de Crescimento Endotelial Vascular (VEGF). Além disso, o crescimento de vasos (angiogênese) também é dependente de uma citocina pró-inflamatória conhecida por Fator  de Necrose Tumoral alfa (TNF-alfa). Alguns tipos de tumores são dependentes de vascularizações patológicas (neoangiogênese) por ações descontroladas de VEGF ou de TNF-alfa. Por essas razões o uso de drogas inibidoras de  atividades neoangiogênicas podem contribuir para a diminuição de suprimento sanguíneo ao tumor, matando suas células por inanição celular, assim como para evitar o deslocamento de células tumorais circulantes que podem causar  metástases (30, 31). A figura 10 mostra os mecanismos de ação das duas formas de bloqueios da angiogênese.

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Figura 10- Ações genéricas das drogas Bevacizumabe e da Talidomida. A primeira impede a sinalização interna de VEGF para desencadear a sinalização de angiogênese. A segunda reduz a concentração externa de TNF-alfa, inibindo os processos pró-inflamatórios no tumor bem como  a atração de  vasos sanguíneos para   o suprimento das células tumorais.

Citoespecificidades de inibidores de angiogênese e os principais tumores afetados:

Bevacizumabe: é um anticorpo monoclonal específico sintetizado  para bloquear a ação  do VEGF, impedindo o crescimento vascular na massa tumoral.

Tumores afetados: pulmão, colo-retal metastático, entre outros.

Neovast: droga antiangiogênica multifuncional que inibe o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF).

Tumores afetados: colo-retal metastático, entre outros.

Vitaxin: anticorpo monoclonal humanizado que atua bloqueando a proteína integrina da membrana das células endoteliais, causando apoptose e inviabilidade de neoangiogênese.

Talidomida: é uma droga que reduz a concentração de TNF-alfa diminuindo o crescimento da massa tumoral por inibição da vascularização e da inflamação tumoral.

Tumores afetados: mieloma múltiplo, melanoma, pâncreas, rim, sarcoma de Kaposi, leucemia mielóide aguda, entre outros

Lenalidomida: induz a apoptose da célula tumoral por meio da inibição das células do estroma de suporte da medula óssea, além do efeito antiangiogênico e da atividade imunomoduladora.

Tumores afetados: mieloma múltiplo e síndrome mielodisplásica, entre outros.

 

9- Inibidores de tirosina-quinase

Ação biológica: as quinases são enzimas localizadas em  regiões específicas de moléculas de alguns receptores de membranas, por exemplo o receptor Her-2, e em  alguns genes, por exemplo, o oncogene bcr/abl.  Proteínas que têm o aminoácido tirosina em sua composição,  em contato com esses receptores ou genes, sofrem a ação das quinases, enzimas  que adicionam fosfatos às tirosinas (fosforilação). A fosforilação das tirosinas gera energia em forma de ATP, que se acumula em compartimentos moleculares dos receptores e dos genes que atuam como mensageiros biológicos para a indução de  sinalizações celulares. Quando há excesso de receptores Her-2, ou da presença do oncogene bcr/abl, por exemplo, a fosforilação é intensa e com  excessiva geração de energia,  promovendo descontroles  de sinalizações para a divisão celular e angiogênese, principalmente. Resultante desses descontroles ocorre o aparecimento de tumor primário, ou a gênese de novos vasos sanguíneos (neoangiogênese) para alimentarem o tumor. As drogas inibidoras de tirosina-quinase ou TKIs bloqueiam a região onde se acumula as moléculas de ATP e, consequentemente, impedem as sinalizações celulares  que induziriam a divisão das células tumorais e a neoangiogênese. Há dois grupos de drogas que atuam como TKIs, um deles é formado por pequenas moléculas sintetizadas pela bioengenharia médica e que são identificadas pelos sufixos ib ou ibe, e o outro se deve à produção de anticorpos monoclonais e que são identificadas pelo sufixo ab (3, 32, 33, 34). A figura 11 mostra uma representação das ações inibidoras efetuadas pelas drogas inibidoras de tirosina-quinase.

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Figura 11- Ação genérica dos inibidores de tirosina-quinase (TKIs) para divisão celular. a- representação esquemática do conjunto de sinalização de TK: Receptor de Fator de Crescimento (RFC) para divisão celular ligado à região de TK, por onde os sinais para divisão celular são emitidos; b- indução normal: quando o Fator de Crescimento (FC), indutor da divisão celular, se encaixa ao RFC específico, os mensageiros químicos de tirosinaquinase emitem sinais em forma de ATP para a divisão celular. c- ação das drogas inibidoras de TK (TKIs): as TKIs tomam o lugar de ATP, impedindo a sinalização para a divisão celular.

Citoespecificidades das drogas inibidoras de tirosina-quinase (TKIs) e principais tumores afetados:

Axitinibe: inibidor de tirosina-quinase do receptor do fator de crescimento endotelial vascular ou VEGFR.

Tumores afetados: carcinoma de células renais, LMC, LLA, entre outros.

Desatinibe: inibidor de tirosina-quinase do oncogene bcr/abl.

Tumores afetados; LMC Ph+, LLA, LMA, próstata, entre outros.

Erlotinibe: inibidor de tirosina-quinase do receptor do fator de crescimento endotelial ou EGFR.

Tumores afetados: pâncreas, entre outros.

Gefitinibe: inibidor de tirosina-quinase de receptor do fator de crescimento endotelial ou EGFR.

Tumores afetados: pulmão “não pequenas células”, entre outros.

Imatinibe: inibidor de tirosina-quinase do oncogene bcr/abl e de receptor do fator de crescimento derivado de plaquetas ou PDGFR.

Tumores afetados: LMC, tumores estromais gastrointestinais, entre outros. Lapatinibe: inibidor de tirosina-quinase de receptores dos fatores de crescimento epidermal-1 e 2 ou EGFR1/EGFR2, conhecidos também por  Her-1/Her-2.

Tumores afetados: mama, cólon, entre outros.

Sorafenibe: inibidor de tirosina-quinase de receptor do fator de crescimento endotelial vascular ou VEGFR.

Tumores afetados: renal, carcinoma hepatocelular, tireóide, entre outros. Sunitinibe: inibidor de tirosina-quinase de receptor do fator de crescimento endotelial vascular ou VEGFR.

Tumores afetados: renal, estroma gastrointestinal, entre outros.

Ibrutinibe: inibidor de tirosina-quinase e de tirosina-quinase de Bruton (BTK) presente em células B. A BTK ativa a maturação das células B e mastócitos. Ao inativar BTK as células B interrompem o processo de maturação e são liberadas dos linfonodos para o sangue periférico, onde sofrem apoptose. Tumores afetados: leucemia linfocitica crônica, linfoma das células do manto, linfoma folicular, macroglobulinemia de Waldstrom, mieloma múltiplo, entre outros.

Trastuzumabe: inibidor de tirosina-quinase de receptor do fator de crescimento epidermal-2 ou EGFR-2, conhecido também por Her-2.

Tumores afetados: mama, entre outros.

Cetuximabe: inibidor de tirosina-quinase de receptor do fator de crescimento epidermal ou EGFR.

Tumores afetados: coloretal, cabeça e pescoço, não-pequenas  células do pulmão metastático, entre outros.

10- Inibidores das proteassomas

Ação biológica:  as proteassomas são organelas citoplasmáticas que tem por funções degradar proteínas anormais das células, quer sejam aquelas  originadas por envelhecimento celular ou  as decorrentes por alterações tóxicas de carcinógenos, por exemplo: vírus, bactérias e produtos químicos. Os subprodutos advindos das degradações de proteínas anormais efetuadas pelas proteassomas   ativam a proteína NF-κβ (Fator nuclear kappa-beta). A NF-κβ quando ativada de forma equilibrada inibe o gene P52, que normalmente estimula a apoptose celular e, portanto, controla o tempo de vida da célula. A NF-κβ atua, também, na ativação do gene P50 dos linfócitos B a sintetizarem imunoglobulinas, e na estimulação do gene Rel A que promove a divisão celular. Entretanto, em situações patológicas em que ocorrem contínuas ativações de NF-κβ, por exemplo, estímulos epigenéticos de carcinógenos, as proteassomas  liberam altas concentrações de subprodutos degradados que ativam descontroladamente a NF-κβ. Essa ativação  bloqueia completamente o gene da apoptose  causando o prolongamento da vida das células afetadas, estimula a divisão dessas células  e, por fim, induzem os linfócitos B a produzirem excessiva concentrações de imunoglobulinas anormais (12, 35, 36).   A figura 12 mostra a ação inibidora da droga Bortezomib nas proteassomas.

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Figura 12- A ação inibidora da droga Bortezomid na proteassoma evita a ativação da proteína NFκ-β, e faz com que as células voltem a controlar seus tempos de vida celular, suas divisões celulares, e os linfócitos B sintetizem imunoglobulinas normais.

 

Citoespecificidades das drogas inibidoras das proteassomas e principais tumores afetados:

Bortezomibe: é uma droga que têm em sua composição química o ácido boronico. O átomo boron se liga com alta especificidade na região catalítica das proteassomas inibindo-as de degradarem as proteínas anormais marcadas com ubiquitinas. Essa inibição evita a ativação contínua da proteína NF-κβ e permite que a célula efetue normalmente a apoptose, a divisão celular e a síntese controlada de imunoglobulinas pelos linfócitos B.

Tumores afetados: mieloma múltiplo, entre outros.

Carfilzomibe: esta droga liga-se de forma irreversível à proteassoma e inibe a sua atividade quimotríptica (quimotripsina-like), induzindo a célula tumoral à apoptose e inibindo o crescimento tumoral.

Tumores afetados: mieloma múltiplo.

 

11- Inibidores dos microtúbulos

Ação biológica: cada célula nucleada tem dois conjuntos de centríolos que, por sua vez, são compostos por agrupamentos de microtúbulos. Quando a célula está na fase M do ciclo celular e que corresponde à divisão da célula,  cada centríolo com seus microtúbulos se polariza para os dois extremos da célula formando os fusos espiralantes, ou fuso mitótico,  por onde migram as cromátides irmãs dos cromossomos que serão direcionadas para as duas células filhas resultantes da divisão celular. As drogas inibidoras dos microtúbulos impedem polarização dos centríolos, evitando a divisão celular. Dois grupos de drogas têm atividades inibidoras dos microtúbulos: Taxel , produto inicialmente extraído da casca da árvore conhecida por Taxus Brevifolia (Teixo do Pacífico), e a Vinca, extraída da planta Vinca rósea (3, 12, 37, 38). A figura 13 resume esquematicamente a ação das drogas inibidoras dos microtúbulos.

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Figura 13- Os inibidores de microtúbulos dos centríolos da célula tumoral impede a formação do fuso mitótico que precede a divisão celular e a induz à apoptose.

 

Citoespecificidades das drogas inibidoras dos microtúbulos e os principais tumores afetados:

Paclitaxel albumina, docetaxel, cabazitaxel: o taxel é um composto com seis átomos de oxigênio expostos em sua estrutura externa e que reagem com as proteínas tubulares (microtúbulos) dos centríolos, inibindo-os de se movimentarem e de se organizarem para mitose e, consequentemente, impedem a divisão celular e induzem  a célula tumoral  à apoptose. Tumores afetados: mama, pulmão (células não-pequenas), próstata, cabeça e pescoço, entre outros e a critério médico.

Vincristina, vindesina e vimblastina: são alcaloides com sete átomos de oxigênio expostos em sua estrutura externa que, da mesma forma como ocorre com o taxel, a vinca impede a divisão celular e expõe a célula à apoptose.

Tumores afetados: ovário, cabeça e pescoço, cervix, pulmão, sarcomas, linfomas, neuroblastomas, mama, mieloma múltiplo, entre outros e a critério médico.

 

12- Inibidores de mTOR

Ação biológica: mTOR (mammalian Target Of Rapamycin) é a sigla de um conjunto de enzimas que atuam como quinases de proteinas que tem sequências de aminoácidos serina-treonina. As enzimas mTOR são importantes sinalizadores da via AKT envolvida na sinalização de tumores.  Há dois tipos de  mTOR: o mTOR-Rictor que atua no controle da angiogênese, sobrevida celular (apoptose) e diferenciação celular, e o mTOR-Raptor que controla a divisão celular. A indução contínua de mTOR na sinalização de AKT não só induz a formação de células tumorais de um tumor primário, mas possibilita também a atração de vasos sanguíneos para o tumor e, consequentemente, a circulação de células tumorais para outros órgãos, originando metástases (12, 39, 40). A figura 14 mostra um esquema da participação de mTOR na sinalização de AKT e formas de bloqueios terapêuticos.

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Figura 14- Inibidores de mTOR-Rictor e mTOR-Raptor que bloqueiam a divisão  e abreviam a sobrevivência  celular, assim como impedem a neoangiogênese.

 

Citoespecificidades das drogas inibidoras de mTOR e os principais tumores afetados:

Temsirolimus: é uma droga que in vivo se transforma em rapamicina e inibe a ação sinalizadora de mTOR-Rictor, relacionada com a progressão da fase G1 do ciclo das células tumorais, e reduz a capacidade de neoangiogênese.

Tumores afetados: renal, entre outros.

Everolimus:   é uma droga que inicialmente foi empregada como imunossupressora para rejeição de transplantes renais mas que mostrou-se ativa na inibição da sinalização de mTOR-Raptor relacionada com a divisão de células tumorais.

Tumores afetados: renal, entre outros.

Deforolimus e ridaforolimus: são drogas inibidoras  de mTOR-Rictor que bloqueiam a sobrevida celular, a diferenciação da célula tumoral, e a  neoangiogênese.

Tumores afetados: sarcomas de tecidos moles e ósseo, entre outros.

 

13- Inibidores de PI3Ks

Ação biológica: PI3Ks é um grupo de enzimas quinases específicas que significa Phospho Inositide 3 Kinases. Essas enzimas atuam de diferentes formas na célula, principalmente no sentido de acionar ou desligar a via de sinalização de mTOR. Dessa forma, participam ativamente da divisão,  diferenciação e mobilidade celular, bem como da formação de novos vasos sanguíneos. Em alguns tipos de câncer, as PI3Ks estão permanentemente ligadas e induzem as células tumorais a crescerem incontrolavelmente (12, 41). A figura 15 mostra a ação da droga inibidora de PI3Ks na célula tumoral.

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Figura 15- Ação genérica de Idelasinib na  enzima PI3K-δ impedindo a sinalização de AKT para as proteínas mTOR-Rictor e mTOR-Raptor, com maior efeito para pacientes que tenham mutação no gene supressor p53.

 

Citoespecificidade do inibidor de PI3Ks e principais tumores afetados:

Idelasinibe: é um inibidor específico de PI3K-delta de doenças linfoproloferativas de células do tipo B, notadamente para aquelas que  têm mutação no gene supressor p53.

Tumores afetados: Leucemia Linfocítica Crônica, entre outros.

 

14-Inibidores da desacetilização das histonas (HDIs)

Ação biológica:  as histonas são proteínas em forma de carretéis com moléculas do DNA enroladas e compactadas que se revelam ao microscópio sob a forma de cromatinas nos núcleos celulares. Quando as histonas recebem o radical acetil, os genes contidos nas moléculas de DNA passam a sintetizarem proteínas e enzimas. Ao perderem esses radicais  (desacetilização) os genes deixam de produzir proteínas e enzimas.  Em câncer, a acetilação e desacetilização tem importância quando a origem de células tumorais ocorre por bloqueio em genes supressores de tumor, por exemplo, o gene p53.  O uso de drogas inibidoras da desacetilização das histonas (HDIs) promove a reativação dos genes supressores, evitando a formação de células tumorais (42, 43). A figura 16 resume  os processos de acetilação e desacetilização das histonas, assim como a ação celular dos HDIs.

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Figura 16- Ação genérica da acetilação e desacetilização das histonas. Acetilação normal e estímulo de genes supressores: (1) estímulos próinflamatórios penetram na célula;  (2)  ativam a acetilação das histonas; (3) induzem o gene p53 a efetuar mecanismos de reparo de DNA ou de apoptose das células tumorais;  (4) e liberam  proteínas pró-apoptóticas, causando  a apoptose da célula. Desacetilização que ocorre em célula tumoral: (5) a excessiva concentração de produtos degradados de proteínas anormais em células tumorais fosforilam intensamente os radicais acetil das histonas, desacetilando-as e (6)  bloqueando a expressão do gene p53 para a síntese  de proteínas pró-apoptóticas, facilitando o progresso tumoral. Inibidores da desacetilização das histonas (HDIs): (7) os HDIs interrompem a ação de enzimas que retiram os radicais acetil das histonas (desacetilização),  permitindo que ocorra a acetilação normal das histonas e, consequentemente, o estímulo do gene p53.

 

Citoespecificidades dos inibidores da desacetilação das histonas e os principais tumores afetados:

Vorinostat: é um ácido hidroxâmico suberoil anilida (SAHA) que desacetila as histonas, inclusive com quelação do zinco que compõe o sítio ativo das histonas.

Tumores afetados: síndrome de Sézari, linfoma LCCT, entre outros. Belinostat: é um ácido hidroxâmico tipo histona desacetilase (HDAC) que tem atividades antineoplásicas por inibição da divisão e diferenciação celular, bem como no bloqueio da neoangiogênese. Induz, também, a apoptose das células tumorais.

Tumores afetados: Linfoma das células T periféricas, entre outros.

Entinostat: similar ao Belinostat mas com efeito suplementar de estimular os  o sistema imunológico, especialmente as células T citotóxicas. Tumores afetados: linfoma de Hodgkin, mama, pulmão, entre outros.

 

15- Inibidores da via de Hedgehog

Ação biológica: a sinalização de Hedgehog atua com dois receptores transmembrana denominados por Patched (Pat) e Smoothened (Smo), que estão localizados próximos entre si. Em situações normais, notadamente durante a fase embrionária em que ocorre o desenvolvimento de órgãos e sistemas, o receptor Pat, ao receber o estímulo da proteína Hedgehog (Hh), ativa  o receptor Smo a emitir sinais químicos relacionados com a transcrição do DNA para a divisão celular e angiogênese. Em pessoas adultas normalmente essa via não está ativada. Entretanto, em alguns tipos de tumores, mudanças genéticas podem estimular a contínua síntese de proteínas Hh com consequente  ativação descontrolada de Pat e Smo.           A ação biológica do inibidor da via de Hedgehog ocorre, por sua vez, por meio do bloqueio do receptor Smo, tornando-o inativo e sem condições de emitir  sinalização para o crescimento do tumor (12, 44, 45). A figura 17a e 17b representam as situações pró-tumoral devido a mutação de Hh, e antitumoral por ação da droga inibidora, respectivamente.

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Figura 17- a- via normal de Hedgehog para transcrição do DNA dos genes que induzem a divisão celular e neoangiogênese: (1) a proteína Hedgehog (Hh) penetra na célula através do receptor Patched (Pat) e (2) estimula o receptor Smoothened (Smo) a liberar indutores que rompem a ligação de glicina (circulo vermelho) com a proteassoma. (3) a glicina entra no núcleo e ativa a transcrição dos genes. b- inibidor da via de Hedgehog: (1) a proteína Hh penetra na célula através de Pat e (2) estimula o receptor Smo que está bloqueado pela droga Vismodegibe,  (3) inibindo o estímulo que romperia a ligação de glicina com a proteassoma e, assim, não há estímulo dos genes para divisão celular e angiogênese.

 

Citoespecificidade do inibidor da via de Hedgehog e os principais tumores afetados:

Vismodegibe: essa droga se liga à uma região molecular externa do receptor transmembrana Smo, bloqueando as sinalizações da via de Hedgehog para divisão das células tumorais e da neoangiogenese. Tumores afetados: carcinomas das células basais, entre outros. 16-Anticorpos monoclonais anti-tumorais

Ação biológica: os anticorpos monoclonais (AM) isolados integram  esquemas terapêuticos próprios (figura 18a), assim como conjugados à  quimioterapia (figura 18b) e à partículas radioativas, também conhecidos por radioimunoconjugados (figura 18c). Três diferentes sufixos indicam o tipo de anticorpos monoclonais com fins terapêuticos: omabe: para os murinos (obtidos de animais), ximabe: para os quiméricos,   zumabe: para os humanizados, umabe: para os humanizados recombinantes (46, 47).

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Figura 18- (a) anticorpo monoclonal isolado, por exemplo, Trastuzumabe; (b) anticorpo monoclonal conjugado com droga quimioterápica, por exemplo, Brentuximabe; (c) anticorpo monoclonal conjugado com partículas radioativas (radioimunoconjugado), por exemplo, I-tositumomabe.

 

Citoespecificidade dos anticorpos monoclonais anti-tumorais e os principais tumores afetados:

Ibiritumomabe tiuxetan: anticorpo monoclonal acoplado com isótopo (radioimunoconjugado). Ao ligar-se com o antígeno CD 20 de células B, seguido da irradiação do tumor, ativam-se as vias de apoptose que induzem a morte celular.

Tumores afetados: linfoma não-Hodgkin de células B de baixo grau, folicular ou transformado, entre outros.

I-tositumomabe: anticorpo monoclonal acoplado com isótopo

(radioimunoconjugado). Ao ligar-se com o antígeno CD 20 de células B, seguido da irradiação do tumor, ativam-se vias de apoptose que induzem a morte celular

Tumores afetados: linfoma não-Hodgkin CD 20 positivo, folicular, com ou sem transformação, entre outros

Rituximabe: inibe o antígeno CD20 dos linfócitos B leucêmicos e linfocitários, impedindo-os de emitirem sinais para que se produzam linfócitos auto-imunes e tumorais.

Tumores afetados: linfomas não-Hodgkin de células B, CD 20 positivo, linfoma de Burkitt, linfoma folicular, linfoma difuso de grandes células B, leucemia das células cabeludas entre outros. 

Brentuximabe: anticorpo monoclonal conjugado com Monometil auristatina E MMAE,  que ao se ligar com o antígeno CD 30  ativa  as vias de sinalizações de apoptose.

Tumores afetados: Linfoma de Hodgkin.

Trastuzumabe: inibe a hiper-expressão do receptor Her-2 de células, bloqueando a sinalização que estimula a divisão celular.

Tumores afetados: mama metastático e gástrico, entre outros.

Ado-trastuzumabe: anticorpo monoclonal conjugado com entansina (DM1). Além de inibir a hiper-expressão do receptor Her-2 de células bloqueando a sinalização que estimula a divisão celular,  induz também a apoptose celular.

Tumores afetados: mama metastático.

Gemtuzumabe: inibe o antígeno CD 33, induzindo a apoptose celular.

Tumores afetados: leucemia mielóide aguda CD 33 positivo.

Alemtuzumabe: inibe o antígeno CD 52 de células B, induzindo a apoptose.

Tumores afetados: leucemia linfocítica crônica do tipo B, entre outros.

Bevacizumabe: inibe o fator estimulador de angiogênese VEGF-A.

Tumores afetados: colorretal metastático, pulmão, renal, glioblastoma, ovário, mama, entre outros.

Ipilimumabe: inibe os antígenos CTLA-4 de linfócitos T, impedindo-os de liberarem citocinas que sinalizam a finalização das ações imunológicas, notadamente de macrófagos que atuam em inflamações tumorais e desencadeiam sinais imunológicos para as células T CD8, ou células T citotóxicas, atacarem as células tumorais . Tumores afetados: melanoma, entre outros.

 

17-Indução de mecanismos biológicos anticâncer

Ação biológica: algumas drogas tem sido usadas como estimuladoras de mecanismos biológicos, geralmente  preventivos, contra o desenvolvimentos de tumores. Até o presente há dois tipos de ações fisiológicas anticâncer  cientificamente comprovadas, quais sejam, as indutoras de autofagia das células tumorais e  os estimuladores de respostas imunes ( 50, 51, 52, 53, 54).

Citoespecificidades das drogas indutoras de autofagia das células tumorais:

Resveratrol: é um polifenol encontrado em sementes de uva e vinho tinto. Além de várias propriedades protetivas orgânicas, seus componentes químicos interferem na sinalização de NF-κβ,  induzindo a apoptose e inibindo a neoangiogênese.

Ativador de AMPK (Adenosina Monofosfato Proteina Quinase): é um produto extraído da planta Gynostemma pentaphyllum. Em concentrações normais atua como enzima reguladora da energia celular por meio da captura de glicose e da biogênese do transportador de glicose, a molécula Glut-4. As células tumorais em comparação com as normais necessitam de muita glicose para suas ações biológicas. A ativação contínua de AMPK, entretanto,  tem efeitos citotóxicos contra as células tumorais por   capturar intensamente a  glicose, privando-a  de energia  para a sua sobrevivência. Citoespecificidades das drogas estimuladoras de respostas imunes:

Triterpenóides: são saponinas do ácido quiálico, extraído principalmente de maçãs, que têm funções antioxidantes e indutora de mecanismos imunológicos.

Curcumim: é um fito-nutriente (Corcuma longa) extraído do açafrão da Índia que tem funções antioxidantes e anti-inflamatórias, mas recentes pesquisas revelaram que no câncer pode modular a divisão das células tumorais através das ciclinas D1 e c-myc, além de induzir a apoptose por meio das sinalizações da caspase e dos genes p53 e p21..

Aspirina: o ácido acetil salicílico tem alto potencial anti-inflamatório, inibindo a enzima COx2 (Ciclo Oxigenase 2) cuja função é estimular a inflamação tumoral. Uma outra função importante decorre da inibição da agregação e da adesividade plaquetária. Recentemente, pesquisadores observaram que as células tumorais circulantes com tendência metastática se deslocam pela corrente sanguínea envolvidas por  plaquetas, evitando, assim, o reconhecimento imunológico dos macrófagos. O uso de aspirina elimina a aderência das plaquetas nas células tumorais circulantes,  expondo-as  à eliminação por macrófagos.

BCG (Bacilo Calmette-Guérin): a vacina BCG desencadeia uma variedade de respostas imunes, notadamente se for infundida diretamente no tumor. Embora seu mecanismo antitumoral seja ainda desconhecido acredita-se que seja um dos agonistas de TLR7 (ver abaixo), e seu uso tem sido eficaz no tratamento do câncer de bexiga.

Agonistas de TLR7 (imidazoquinolinas): TLR7 é um receptor celular que tem a função de reconhecer o patógeno e ativar a imunidade inata das células T  e de macrófagos. O estímulo (agonistas) de TLR7 acentua a ativação do sistema imunológico. Tem sido aplicado no tratamento de verrugas genitais e carcinoma de célula basal superficial (câncer comum de pele).

 

Conclusão

As ações terapêuticas das drogas antitumorais estão se tornando cada vez mais específicas em relação aos diferentes tipos de tumores. Destacam-se principalmente a imunoterapia desenvolvida pela bioengenharia médica, com anticorpos monoclonais cada vez mais específicos e refinados. Por outro lado, o desenvolvimento de nanopartículas terapêuticas antitumorais, que   transportam  drogas letais somente contra as células tumorais, é quase uma realidade.   Por todas essas razões, a identificação laboratorial apropriada  de um determinado tipo de tumor é muito importante para a conduta terapêutica.  As alterações moleculares que  transformam células tumorais células normais em tumorais, assim como supostos mecanismos epigenéticos indutores de produtos carcinogênicos, devem ser pesquisados em pessoas com câncer. Mas, apesar de todo o progresso científico e tecnológico exposto neste artigo, a detecção precoce de tumores e medidas preventivas para evita-los constituem presentemente as medidas mais eficazes para evitar que um tumor se transforme em câncer.

 

Referências

 

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